sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

POR UM DIA! Ou: QUE FELICIDADE! LULA JAMAIS!

Por um dia!
Artigo publicado por Reinaldo Azevedo no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo.
Por mim, digo: Que felicidade! Lula jamais!

Luiz Inácio Lula da Silva acaba hoje - tem mais uma solenidadezinha para a pantomima da despedida e só! Depois é passado. Se a sua eleição foi celebrada como o advento, tenta-se fazer de sua despedida um rito sacrificial, embora exultante, como se ele estivesse caminhando para uma imerecida imolação, mesmo sendo sucedido na Presidência por um nome do seu grupo político. A sua cascata lacrimosa - e como ele chora fácil, não? - é só uma nota patética no rito corriqueiro das democracias: os governantes eleitos exercem por um tempo o mandato e depois deixam o poder, seguindo o que vai estabelecido nas leis. O circo que se arma dá a entender que ele está nos fazendo uma generosa concessão. E não está! Ao contrário: a democracia, na qual ele nunca acreditou muito, é que foi generosa com ele.

É claro que o Brasil teve alguns avanços. Lula estava lá para isto mesmo: tentar melhorar o que não ia bem. É essa a função dos governos, ou não precisaríamos deles. Afinal, se o objetivo não fosse aumentar o bem-estar coletivo e garantir o pleno exercício das liberdades públicas e individuais, serviriam para quê? Só para tungar a carteira dos contribuintes? Nem Lula nem governante nenhum têm o direito de nos cobrar por aquilo que nós lhes demos. Eles não nos dão nada! Para ser mais exato, tiram. Aceitamos, como uma das regras do jogo, conceder-lhes algumas licenças em nome da ordem necessária para viver em sociedade. Só isso!

Lula se vai. Não há nada de especial nisso. Na manhã seguinte, como diria o poeta, os galos continuarão a tecer as manhãs - consta que eles só pararam de cantar quando morreu Papa Doc, o ditador do Haiti. Não creio que devotem o mesmo silêncio reverencial a Papa Lula! O petista terá cumprido oito anos de um governo que fez pouco caso das leis, das instituições e do decoro, e tal ação deletéria nada teve a ver com suas eventuais qualidades. A virtude não deriva do vício; o bem não descende do mal.

A democracia, que garante amanhã a posse de Dilma Rousseff, teve no PT - e particularmente em Lula - um adversário importante em momentos cruciais da história do Brasil. Esse é o partido que não participou do colégio eleitoral que pôs fim ao regime militar; que se negou a homologar a Constituição de 1988; que se recusou a dar sustentação ao governo de Itamar Franco; que sabotou - e cabe a palavra - todas as tentativas de reformar o país empreendidas por FHC e que, agora, se esforça para censurar a imprensa.

A sorte foi, sem dúvida, generosa com Lula caso se considere a sua ação efetiva para a consolidação da democracia política. Seus hagiógrafos tendem a superestimar a sua atuação como líder sindical, ignorando a sua histórica irresponsabilidade no que respeita aos marcos institucionais, que são aqueles que ficam e que compõem o molde no qual a sociedade articula as suas diferenças.

Neste último dia de Lula, meu brinde vai para a democracia, que sobreviveu às ações deletérias de um líder e de um partido que se esforçam de modo metódico para solapá-la em nome de suas particularíssimas noções de Justiça.

Vai, Lula! Os que preservam a democracia o saúdam!

Por Reinaldo Azevedo
Tags: Lula

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

TODO SER HUMANO É CAPITALISTA E DIFERENTE ENTRE SI, MAS O ESTADO SOCIALISTA NÃO LHE RECONHECE DIFERENÇAS E LHE TIRA O DIREITO DE PROPRIEDADE.

O homem é proprietário de coisas desde os tempos bíblicos. Se o homem é proprietário, então ele é capitalista. Todo homem é proprietário do corpo que ocupa e do trabalho que vende. Logo, não existe ser humano que não seja capitalista.

Só a coisa pública é socialista. Seja o estado capitalista ou socialista, a coisa pública deve ser socializada porque todos são iguais proprietários da coisa pública. O homem que se diz socialista comete o engano de desejar a coisa do próximo porque considera que a propriedade do outro é igualmente dele.

Esse engano explica o insucesso do estado socialista que eliminou a propriedade e, sem querer, eliminou a vontade de trabalhar para ter coisas. O homem que vive no estado socialista tem o seguinte pensamento: Para que trabalhar se o resultado do meu trabalho não será meu ou; para que trabalhar se o estado é o único dono e deve prover-me ou; enquanto eu não for dono das minhas coisas não vou trabalhar para esse único dono do estado socialista.

Todo homem é capitalista e deve ter direito de propriedade. No entanto, ele precisa do estado para resolver conflitos que surgem pela disputa das coisas. A solução é um estado capitalista que defenda a propriedade do cidadão. Porém, as coisas do estado, os servidores e agentes públicos e os serviços prestados pelo estado são de propriedade socialista (de todos igualmente).

Mas o governante que se diz socialista age como se tudo fosse somente dele porque o estado é ele. O resultado é que as coisas do cidadão são capitalizadas em prol do dirigente socialista e o trabalho do cidadão é socializado em prol de todos. Perceberam o engano do estado socialista? Ele capitaliza as coisas do cidadão e socializa o cidadão. E quem não aceita a expropriação será preso por discordar da pretensa igualdade entre todos.

MAIS UMA DO RONALDINHO DE LULA: EMPRESÁRIO PAGA ALUGUEL DE R$ 12 MIL DE LULINHA!

Mais uma do Ronaldinho de Lula: empresário paga aluguel de R$ 12 mil de Lulinha!
Publicado por Reinaldo Azevedo no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo
Por José Ernesto Credendio e Andreza Matais, na Folha. Comento em seguida:

Um dos filhos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fábio Luís, mora desde 2007 em apartamento alugado por R$ 12 mil nos Jardins, bairro nobre de São Paulo. Quem paga a conta é uma empresa com contratos com vários governos, entre eles o federal. Lulinha, como Fábio Luís é conhecido, não é sócio da empresa que paga o aluguel.

Mas o Grupo Gol, que alugou o apartamento, é do empresário de mídia e mercado editorial Jonas Suassuna, sócio de Lulinha em um outro negócio, a empresa de conteúdo eletrônico Gamecorp. Primo do ex-senador Ney Suassuna (PMDB-PB), Jonas fez fortuna com venda de CDs da Bíblia gravados por Cid Moreira.

Procurado pela Folha, Jonas Suassuna disse que não vai mais pagar o aluguel para o filho do presidente. O grupo tem contrato com vários governos para venda de livro didático; do governo federal, recebeu valores irrisórios nos últimos oito anos. No prédio, há um apartamento que foi ocupado pelo presidente de uma das maiores usinas de açúcar do país.

Há uma unidade por andar, com quatro suítes e o mesmo número de vagas na garagem. O último pavimento conta com deck e piscina. O valor de cada unidade é estimado em R$ 1,8 milhão. Lulinha disse à Folha que foi morar com o amigo em 2007, quando se separou.

“Ele arcava com o aluguel e eu entrei com os móveis da minha antiga residência e assumi as despesas do apartamento. Há quatro meses pedi para ficar com todo o apartamento, pois me tornei pai, e estamos transferindo o contrato para meu nome.”

Já Suassuna, que mora no Rio, disse que tinha um quarto no apartamento, que usava quando viajava a São Paulo até Lulinha levar a mulher e o filho para lá. A Folha apurou que até hoje é Suassuna quem paga o aluguel, e o dono do imóvel não havia sido contatado até a semana passada para discutir mudança no contrato. Aqui

Comento
O Ronaldinho de Lula é mesmo um portento. Nunca antes da história destepaiz um ex-monitor de Jardim Zoológico teve carreira tão fulminante. Mas também nunca antes da história destepaiz o pai de um monitor de Jardim Zoológico elegeu-se presidente da República!

A gente nota uma coisa curiosa, quase uma tradição familiar. Lulão, o pai de Lulinha, também passou anos morando de favor na casa do “compadre” Roberto Teixeira, aquele que teve atuação tão vistosa - e ruidosa - na venda da Varig.

A gente entende por que Lula fica chateado com a imprensa. É mesmo um absurdo ficar noticiando essas coisas… Que culpa tem Lulinha se um empresário aprecia tanto o seu trabalho? Não é o primeiro? A então Telemar, hoje Oi, foi muito mais generosa…

Por Reinaldo Azevedo
Tags: Lulinha

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

J'ACUSE! Ou: EU ACUSO O SISTEMA EDUCACIONAL, O PROGRESSISMO, O SOCIALISMO E AUMENTO DO ESTADO PELAS MAZELAS DA EDUCAÇÃO QUE TORNAM O ALUNO UM FOLGADO

J'acuse! Artigo de Igor Pantuzza Wildmann publicado no site www.midiasemmascara.com.br em 27 Dezembro 2010.
Artigos - Educação

Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice.
(Meu dever é falar, não quero ser cúmplice.)

Émile Zola

Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes, assassinado a facadas por um aluno.

Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado "dano moral" do estudante foi ter que... estudar!). A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro. O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.

Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática. No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que "era proibido proibir". Depois, a geração do "não bate, que traumatiza". A coisa continuou: "Não reprove, que atrapalha". Não dê provas difíceis, pois "temos que respeitar o perfil dos nossos alunos". Aliás, "prova não prova nada". Deixe o aluno "construir seu conhecimento." Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, "é o aluno que vai avaliar o professor". Afinal de contas, ele está pagando... E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de "novo paradigma" (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: "o bandido é vítima da sociedade", "temos que mudar 'tudo isso que está aí' "mais importante que ter conhecimento é ser 'crítico'."

Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno-cliente... Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que "o mundo lhes deve algo". Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.

Ao assassino, corretamente, deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;

EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a "revolta dos oprimidos" e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;

EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;

EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para "adequar a avaliação ao perfil dos alunos";

EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;

EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;

EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã

EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu "tantos por cento";

EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno "terá direito" de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um "novo paradigma", uma " nova cultura de paz", pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da "vergonha na cara", do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os "cabeças-boas" que acham e ensinam que disciplina é "careta", que respeito às normas é coisa de velho decrépito;

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição.

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam "promoters" de seus cursos;

EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;

Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos-clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.

Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de "o outro"...

A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: "Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão.. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima.. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo."

Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão.

É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor "nova cultura de paz" que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.

Texto atribuído ao Dr.Igor Pantuzza Wildmann, advogado, doutor em Direito Econômico e professor universitário.

MARX E SEU LEGADO DE HORRORES. Ou: A CEGUEIRA DOS ESQUERDISTAS

Marx e seu legado de horrores
Publicado por Ipojuca Pontes no site www.midiasemmascara.com.br em 27 Dezembro 2010.
Artigos - Movimento Revolucionário

As revoluções ocorridas nos últimos 100 anos jamais se deram, conforme previsto por Marx, pelo desenvolvimento das "contradições internas do capitalismo" e menos ainda pela força do "determinismo histórico".

No momento em que escrevo estas notas, o Produto Interno Bruto brasileiro está sendo avaliado em mais R$ 3 trilhões (à margem o que se opera na sábia economia paralela), 38% dos quais vão diretamente para os cofres do governo e são torrados, em sua quase totalidade, em grossos salários e aposentadorias, propaganda, subsídios e patrocínios, viagens incessantes locais e internacionais, verbas de representação, festas, almoços, jantares, manutenção e custeio da amplíssima máquina burocrática, propinas, doações a fundo perdido, além de mordomias múltiplas - para não falar nas bilionárias e permanentes falcatruas das agências, bancos, ministérios e institutos oficiais.

A justificativa encontrada pela elite política e administrativa do país para gastos tão alarmantes quanto inúteis são os imperativos de se obedecer aos dispositivos constitucionais, traçados pela própria elite, e que impõem um simulacro de deveres para com o "social" - fraude lastreada, na atual temporada, pelo ardiloso programa do Bolsa Família. De fato, aos olhos de todos (se não estiverem tapados), na medida em que crescem de forma galopante as escorchantes tributações sobre os bens e ganhos privados, dos trabalhadores e dos empresários, aumenta o número de "excluídos", pois uma coisa decorre exatamente da outra: é o "Estado forte" (com suas "empenhadas" elites partidárias e instituições burocráticas em geral) que se apropria, por força da violência legal (e da inércia ou ignorância da população), da riqueza produzida pela sociedade para usufruto diuturno de privilégios.

A grande e inominável sacanagem que a elite política (à esquerda e à "direita") comete contra o povo brasileiro consiste em não esclarecer alto e bom som quanto à absoluta incapacidade do Estado em solucionar o problema da pobreza e de não o alertar para o fato de que a existência do Estado se fundamenta, por principio, na exploração e escravização da sociedade (daí, a extrema necessidade de tê-lo sob o controle do indivíduo).

Pode-se afirmar, como Hegel, um professor universitário imaginoso e bem-remunerado, que o Estado representa a realidade racional do Espírito absoluto, ou tolerá-lo, no dizer de Roberto Campos, como um mal necessário. Mas, de um modo ou de outro, as medidas paliativas que em seu nome se alardeiam, aqui e acolá, bem como as benfeitorias, no campo social, que a toda hora se inventa e proclama - são elas próprias a evidência do malogro.

E aqui entra, mais uma vez, o pensamento de Marx (e afins). Vociferando contra as forças produtivas da sociedade historicamente sedimentada na propriedade privada, na confiança e na solidariedade que os homens cultivam para sobreviver, o irado profeta da trombeta vermelha, por força de um caráter absolutamente egoísta e deformado, fortaleceu como nenhum outro intelectual moderno o mito do Estado (especialmente ditatorial) como instrumento para se chegar à igualdade e à justiça social. Com sua diabólica vocação para vender ilusões e promover discórdias, expressão de injustificada revolta contra uma realidade espiritual transcendente que jamais chegou a entender, ele de fato ajudou (e continua ajudando com a mística do comunismo) a erguer sociedades perfeitamente escravocratas e desiguais, mantidas ora pela mentira e pelo genocídio, ora pelo medo e pelo terror.

Ao cabo de tudo devemos nos indagar sobre a verdadeira razão do prestigio do marxismo na América Latina, levando-se em consideração que as revoluções ocorridas nos últimos 100 anos jamais se deram, conforme previsto por Marx, pelo desenvolvimento das "contradições internas do capitalismo" e menos ainda pela força do "determinismo histórico".

Em parte, a pergunta encontra resposta na já mencionada luta campal que grupos, partidos e corporações travam pelo poder, usando como instrumental as mais fantasiosas teorias para legitimar a exploração do trabalho da maioria - o que significa dizer, em última análise, a exploração da riqueza criada pelo trabalhador e pelo empresário por uma minoria ativa de políticos, corporações e tecnoburocratas que usam o Estado (e seu aparato de violência legal) para impor suas vontades e garantir seus privilégios.

No que se refere à outra parte da resposta, tenho dúvidas quanto à capacidade da maioria em enxergar o óbvio ululante, pelo menos até que sinta na própria carne - a exemplo do que ocorreu na ex-URSS e ocorre hoje em Cuba, Coréia do Norte, Vietnã e China - a tirania da nomenclatura em nome da Ditadura do Proletariado - o que, bem avaliado, no Brasil de hoje é um projeto que navega firme e a todo vapor.

UM ANO DEPOIS, A FARSA SE REPETE. Ou: A NEVE QUE OCORRE NO HEMISFÉRIO NORTE É UMA FARSA MONTADA PELO CAPITALISMO. É o que dizem os "ambientalistas".






Um ano depois, a farsa se repete
Publicado por Bruno Pontes no site www.midiasemmascara.com.br em 29 Dezembro 2010.
Artigos - Ambientalismo

Em dezembro de 2009, denunciei aqui neste espaço a manobra executada pelo capital internacional no sentido de ludibriar as massas e fazê-las duvidar do aquecimento global inequívoco, justamente no momento em que se promovia a Conferência do Clima em Copenhague, aquela que nos livraria da catástrofe iminente.

Vocês devem lembrar. Enquanto políticos, cientistas, estrelas do show business e outras personalidades de alto gabarito reuniam-se na capital dinamarquesa para discutir maneiras de salvar o planeta e a humanidade animal e vegetal que nele mora, os donos do capital espalharam neve por toda a Europa e também nos Estados Unidos, criando um falso cenário de inverno avassalador em dois continentes e acendendo a desconfiança do público quanto ao fim do mundo.

A tramóia não se resumiu ao uso de neve artificial. A imprensa conservadora, venal e golpista passou a trombetear que aquele dezembro era um dos mais frios da história européia. Foi uma operação calculada para iludir as pessoas de mente mais fraca, que acreditam nos próprios olhos e ouvidos em vez de confiar em políticos, cientistas que dependem de políticos, políticos que dependem de cientistas, ongueiros associados a políticos e cientistas e outras pessoas incapazes de praticar qualquer pilantragem.

Um ano se passou e a humanidade assiste, estupefata, a mais um espetáculo de cinismo do capitalismo transnacional. Justamente quando se realizava em Cancún uma nova conferência para acertar a submissão das economias nacionais à gerência da ONU (é o único jeito de evitar o apocalipse climático), o que acontece?

Na Grã-Bretanha, a temperatura chega a -20ºC. Na Polônia, 18 pessoas morrem devido ao frio, a maior parte delas sem-teto. Em Moscou, três mortos. Na Alemanha, dois mortos, entre eles um idoso que teria sido atingido por um trem enquanto tentava retirar neve. Vários aeroportos da Europa são fechados por causa das nevascas. É inacreditável a cara de pau. Exatamente um ano depois, os capitalistas repetem o ardil para testar a fé dos adoradores de Gaia.

Não podemos ignorar o poder da mídia sobre os mais simplórios. Já encontro por aí sujeitos duvidando do aquecimento global inequívoco, mencionando as nevascas batedoras de recordes e as predições científicas furadas. Outros hereges apresentam um argumento ainda mais ridículo: como podem saber a temperatura da Terra daqui a 50 anos, se não conseguem assegurar que vai chover no próximo sábado? Quanta obtusidade.

Fique atento, irmão verde. Como diz Al Gore, "o planeta está com febre". Não seja tolo a ponto de acreditar no que você vê. Alienação tem limite. Se vierem para você com história de nevasca, mostre ao impertinente os estudos mais recentes da ONU, as matérias da Sônia Bridi exibidas no Fantástico e os artigos de outro doutor em climatologia, o padre comunista Leonardo Boff, que na semana passada reiterou a triste verdade: "O planeta vai continuar com febre".

Publicado no jornal O Estado.

Bruno Pontes é jornalista - http://brunopontes.blogspot.com

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

LULA FINALMENTE CONFESSA: QUER MESMO CENSURAR A IMPRENSA

Por Reinaldo Azevedo no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo
LULA FINALMENTE CONFESSA: QUER MESMO CENSURAR A IMPRENSA

Então fica combinado: Lula não pára de falar bobagem, e eu não paro de escrever que ele fala bobagem. Ele não desiste, eu também não. Nesta segunda, em dois momentos, o Babalorixá de Banânia, já nos estertores da apoteose mental, resolveu atacar a imprensa, evidenciando, pela enésima vez, que ainda não entendeu direito o que é essa tal democracia — ou, o mais provável, já entendeu, mas não gosta.

Em café da manhã com jornalistas, voltou a defender o controle da “mídia”, negando, como sempre, que pretenda censurar a imprensa. Leia esta sua fala, publicada na Folha Online:
“Temos que fazer um debate que todos participem e aprovar uma lei que seja o caminho do meio, nem o que quer a extrema direita nem o que quer a extrema esquerda. Tem que ter bom senso”.

Como as palavras fazem sentido, o que temos acima é uma confissão: Lula pretende mesmo censurar a imprensa; esta que existe não lhe serve. Por que afirmo isso? O Apedeuta defende uma lei que seja o “caminho do meio”. O meio de qual polarização? Segundo ele, entre a “extrema direita” e a extrema esquerda”.

A extrema esquerda, no que diz respeito à comunicação, é formada por aquele bando de desocupados, financiados pelo governo ou por ONGs, que participaram da Confecom (Conferência de Comunicação) e aprovaram o “controle social da mídia”. Ela seria uma das pontas dessa luta. E a extrema direita? Onde estaria?

Seria a imprensa que está aí, entenderam? Ao classificá-la de extremista, Lula pode reivindicar para si o “centro”. A lógica se impõe: se, para o barbudo, a “mídia” é hoje de extrema direita, é evidente, então, que ele está defendendo uma lei — OBSERVEM QUE ELE FALA EM “LEI” — que a force a caminhar para a esquerda. E como isso se faria sem policiamento de conteúdo? Não se faria! A proposta será inescapavelmente autoritária. Nos limites da Constituição e das leis democráticas, o único juiz aceitável do que a imprensa pública ou deixa de publicar é o indivíduo.

Trata-se de uma mentira grosseira a ilação de que a imprensa brasileira é de “extrema direita”. A verdade é bem outra, como sabem os leitores. Os valores dominantes hoje nas redações do país são majoritariamente de esquerda. Basta escolher o tema e fazer o teste. Mais ainda: a grande popularidade de Lula se deve à generosíssima cobertura que lhe dispensa a imprensa que ele quer controlar. Por que essa obsessão?

Ele tentou se explicar:
“Não defendo o controle da mídia, mas responsabilidade. [a mídia] Precisa parar de achar que não pode ser criticada, porque, toda a vez que é criticada, diz que é censura. Quando faz a matéria, diz que é liberdade de imprensa; quando recebe a crítica, diz que é censura”.

Nunca é tarde para Lula aprender alguma coisa, e eu ensino, embora, ex-professor, eu saiba reconhecer um esforço inútil. O problema não está na crítica que Lula e os petistas fazem à imprensa, mas na mobilização do aparato de estado contra a liberdade de expressão. O Apedeuta estabelece uma equivalência entre o Planalto e o jornalismo que é absolutamente falsa! Afinal, nós não podemos pressionar os poderosos com leis de sotaque discricionário, mas eles podem tentar nos intimidar. Mais: a sociedade tem a obrigação de vigiar o governo, mas um governo não pode tentar vigiar a sociedade além dos limites estabelecidos pela Constituição.

Quando a imprensa critica um governante — e é claro que a crítica pode ser injusta -, é razoável supor que estamos num regime democrático. Quando um governante critica a imprensa — sem apontar seus supostos erros —, estamos diante, quando menos, de uma tentação autoritária.

Não, Lula! Não passará!
Quem está passando é Lula.
Faltam apenas três dias.

PS: Era visível o ar compungido de Lula, triste mesmo, de quem está prestes a ser retirado do parquinho porque expirou o prazo do bilhete.

Por Reinaldo Azevedo
Tags: Bobagens de Lula, imprensa

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

JIHAD BELL: HUMOR EM DEFESA DO OCIDENTE. Ou: Vídeo Jingle Bells - The Bethlehem 2010 Version

Postado no blog www.aluizioamorim.blogspot.com em 27/12/2010.

O grupo de humor israelense Latma TV, volta à carga no YouTube, desta feita para fazer uma crítica bem humorada sobre a invasão islâmica que avança sobre o Ocidente. Desta feita com uma paródia a partir da famosa canção natalina americana Jingle Bell.(Aluizio Amorim)

Conforme a Enciclopédia Widipedia, Jingle Bell Rock é o nome popular de uma canção de Natal. Foi gravada inicialmente por Bobby Helms em 1957 com grande sucesso. Ao longo dos anos a canção recebeu várias versões diferentes de diversos artistas.

O cover mais notável da canção foi do grupo Bill Haley & His Comets, Por ter sido interceptado pela gravadora, o single foi liberado quase 30 anos depois, nos anos 90.

A cantora Brenda Lee também lançou a canção em 1964 e novamente em 1967, entrando para os charts da Billboard.

Vários artistas também gravaram covers de Jingle Bell Rock, como Girls Aloud, Hilary Duff, Chris Brown e Lindsay Lohan.

VERSÃO ORIGINAL
Em 13 de dezembro de 1957 o single Jingle Bell Rock foi lançado por Bobby Helms. O cantor, antes conhecido por cantar country e jazz, vinha de uma carreira estável, sendo seu último single Fräulein.

Jingle Bell Rock, lançado próximo ao Natal, trazia no título e em algumas partes da letra trechos da velha canção, Jingle Bell, e referências de outro sucesso natalino, Rock Around the Clock, de 1950. O single chegou ao primeiro lugar nas rádios, sendo o mais famoso de Bobby Helms.

O single foi re-gravado pelo cantor em seu álbum Kapp, de1965 e novamente em 1967 em Little Darlin. Em 1970 o cantor bateu o récorde de single mais executado por mais tempo. Em 1970 foi incluída novamente no álbum Ashley do cantor. No mesmo ano Jingle Bell Rock bateu o próprio récorde de canção mais executada .

Em 1983 Bobby Helms voltou a bater o récorde de canção mais executada no Natal com "Jingle Bell Rock". Ainda em 1983 Bobby Helms voltou aos estúdios para regravar o single e lançá-lo como sua última gravação no álbum Black Rose.

LETRA
Jingle-bell, jingle-bell, jingle-bell rock,
Jingle bells swing and jingle bells ring.
Snowin' an blowin' up bushels of fun,
Now the jingle hop has begun.

Jingle-bell, jingle-bell, jingle-bell rock,
Jingle bells chime in jingle-bell time.
Dancin' and prancin' in Jingle Bell Square
In the frosty air.

What a bright time, it's the right time
To rock the night away.
Jingle-bell time is a swell time
To go glidin' in a one-horse sleigh.

Giddy-yap jingle horse; pick up your feet;
Jingle around the clock.
Mix and mingle in a jinglin' beat;
That's the jingle-bell rock.

O PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR DA LEI 8.112/90 DEVE SER REVOGADO PARA SE EVITAREM CORRUPÇÕES E TORTURAS.

Primeiro surge o fato a ser julgado. Depois se nomeia a comissão de sindicância. Antes mesmo de serem nomeados, os membros da comissão sabem quem vão julgar. O leitor deve observar que o juiz é nomeado antes do crime acontecer. Portanto, o juiz não sabe a quem julgará, mas sabe a quem serve.

A comissão de sindicância ou do processo administrativo disciplinar não sabe a quem serve. Ela serve ao cidadão capitalista, mas pensa que é subordinada à autoridade julgadora que a nomeou. A autoridade nomeante também serve ao Soberano cidadão capitalista, mas atua como se servisse a si mesma.

A Lei 8.112/90 excluiu o princípio do julgador natural. É um caso típico de Lei feita por legislador interessado em si próprio, haja vista que criou um processo administrativo disciplinar com julgadores nomeados a posteriori ou com o próprio corrupto atuando como juiz. No Brasil, é freqüente o caso de servidores que denunciam corrupção serem torturados e de corruptos serem inocentados. A nomeação a posteriori torna a comissão um tribunal de exceção.

Por conta dessa imperfeição da Lei, o corrupto sabe muito bem como manipular a comissão ou a autoridade julgadora. Quase sempre ele se livra, haja vista que a comissão, não sabendo a quem representa, acusa o denunciante como se ele tivesse participado do crime ao mesmo tempo em que o obriga como testemunha.

Há tortura psicológica quando se coloca o denunciante como acusador e acusado ao mesmo tempo. Todos os medos e fantasmas e suplícios lhe vêm à mente. Acaba retirando a denúncia ou admitindo alguma culpa no ato administrativo que ele mesmo denunciou. O resultado é a tortura de inocentes e o favorecimento de corruptos.

Sinta o tamanho da injustiça: o corrupto é declarado inocente e o denunciante passa a ser acusado e torturado. Logo, no Brasil de hoje, nenhum cidadão se arrisca a denunciar algum ato corrupto. Ainda, para piorar o processo, o texto da Lei obriga que o denunciante da Lei 8.112/90 só o faça publicamente, mas o processo resultante e o corrupto acusado tornam-se sigilosos. O corrupto sabe quem o denunciou e ninguém sabe quem é o corrupto.

Defendo a seguinte solução: Que as comissões de sindicância ou de processo administrativo disciplinar sejam permanentes e existam antes do fato delituoso acontecer e que tanto a denúncia quanto o processo de apuração do ato ilegal sejam amplamente públicos. Mesmo assim, não se elimina a possibilidade de os corruptos escolherem a comissão julgadora.

Por conta dessa impossibilidade de se aperfeiçoar esse processo corrupto da Lei 8.112/90 é preferível revogar a parte de processo disciplinar da Lei e criar Tribunais Administrativos Judiciais em cada unidade da Federação, nos mesmos moldes dos Tribunais do Trabalho. Não se gastaria mais do que já é gasto com diárias, passagens e salários para membros de comissões de sindicância ou de processo administrativo disciplinar. Além disso, haveria mais justiça.

sábado, 25 de dezembro de 2010

À ESPERA DE DILMA

À espera de Dilma
Por Nivaldo Cordeiro no site www.midiasemmascara.com.br
24 Dezembro 2010
Artigos - Governo do PT

Os partidos já funcionam como verdadeiras máfias; com o financiamento público teriam o modelo de sonhos: quem estivesse no poder dificilmente seria dele apeado.

O que esperar o novo governo de Dilma Rousseff? Em tudo e por tudo teremos o continuísmo petista, juntamente com seus aliados. Mas o movimento em espiral descendente continuará no rumo aos ideais jacobinos dos revolucionários, pois estes jamais se satisfazem com a mera chegada ao poder. Precisam implantar sua ordem revolucionária.

Dois indicadores foram dados a público, sublinhando essa realidade terrífica. Em entrevista dada à Folha de São Paulo no último domingo o futuro ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, que é o secretário geral do PT, disse que a primeira ação da pasta sob seu comando será fazer a reforma política. Falou pouco em que consistiria essa reforma, enfatizando apenas o aspecto do financiamento público das campanhas. Nas suas palavras:

"Ela é imprescindível para o país e é a tendência da presidente eleita, Dilma Rousseff. Tenho uma série de convicções a respeito, mas, como ministro da Justiça, vou construir o que for possível. Estou absolutamente convencido de que o governo sozinho, sem diálogo com o Congresso e a sociedade, jamais fará uma reforma política. É tarefa inadiável. Defendo com vigor o financiamento público".

O que significa o financiamento público de campanha? A completa autonomia da classe política em relação à sociedade civil, dando poder desmesurado aos partidos políticos vis-à-vis aos empresários e outros agentes não estatais. Os partidos já funcionam como verdadeiras máfias; com o financiamento público teriam o modelo de sonhos: quem estivesse no poder dificilmente seria dele apeado. Estaríamos a meio do caminho andado para que o Estado adquirisse completa autonomia em relação à população, fazendo desaparecer mesmo o problema da representação política.

O segundo ponto não mencionado nesta entrevista, mas que está em outros documentos partidários, é acabar com o Senado Federal, instituindo o sistema unicameral. Cardozo não pôs a mão no vespeiro, pois sabe que qualquer decisão deste quilate envolve a concordância do próprio Senado, que jamais dará o seu endosso. O Senado é o feudo do PMDB, lócus de sua própria fonte de poder. É a reforma dos sonhos do PT. Penso que algo assim só será possível obter pela força, pelo golpe de Estado, e o PT não tem ainda essa força.

Outro indicador da agenda imediata da presidente eleita está no Estadão de hoje, na entrevista de Franklin Martins. Chega a me enternecer a candura do ex-perigoso guerrilheiro. Ele, como Cardozo e toda a cúpula do PT, sentem-se tão à vontade que não têm mais o cuidado de esconder suas más intenções. Franklin anuncia que o PT quer mesmo controlar o conteúdo da mídia, isto é, acabar com a liberdade de imprensa.

Essa é a nefanda agenda preliminar de Dilma para o exercício do poder em seus primeiro meses. O que cabe a nós, os amantes da liberdade, fazer? Temos que dizer como o personagem Durandarte, desde o fundo da Cova de Montesinos, no fabuloso Dom Quixote: "E quando assim não seja - respondeu o tristeDurandarte, com voz desmaiada e baixa - quando assim não seja, paciência, e toca a baralhar as cartas".

Paciência e baralhar! Aguardemos o que nos aguarda o destino. O mal jamais terá a vitória final. Vamos baralhar, pois eles tropeçarão nos próprios pés e cometerão erros fatais.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O PASTOR E O PENSADOR. Ou: O NATAL ESPIRITUAL É MAIS COMPLETO QUE O NATAL MATERIAL.


O papa Bento XVI: crítica ao "reino de Deus sem Deus", oferecido pelo materialismo e pela ciência. Foto Alessia Giuliani/AFP
O teórico comunista Karl Marx: a ditadura do proletariado deixou atrás de si "uma destruição desoladora". Foto Collection Roger-Viollet/AFP

Artigo de Reinaldo Azevedo publicado em Veja On Line e no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo em 12/12/2007.
O pastor e o pensador

"O pastor escreveu uma encíclica para exaltar a ‘oração, o agir, o sofrer e o Juízo (Final)como lugares da aprendizagem da esperança’. O pensador nos convida a pesar as conseqüências de um mundo sem Deus, aquele no qual tudo é permitido"

O papa Bento XVI tornou pública, no dia 30 do mês passado (de 2007), a segunda encíclica de seu pontificado, Spe salvi, expressão resumida da frase de São Paulo aos romanos Spe salvi facti sumus: é na esperança que fomos salvos. Trata-se, inequivocamente, do texto de um pastor, chefe máximo de uma igreja, mas é também a reflexão de um pensador contemporâneo. O pastor entende os motivos que levam o homem, "expulso do paraíso terrestre", a substituir a "fé em Jesus Cristo" pela "fé no progresso". O pensador considera dois momentos em que essa substituição se fez história – a Revolução Francesa (1789) e o socialismo – e aponta o erro fundamental do teórico comunista alemão Karl Marx (1818-1883): "esqueceu o homem e a sua liberdade". O papa não critica o marxismo como uma ameaça presente, mas como a expressão máxima de um risco permanente.

O pastor escreveu uma encíclica para exaltar a "oração, o agir, o sofrer e o Juízo (Final) como lugares da aprendizagem da esperança". O pensador nos convida a pesar as conseqüências de um mundo sem Deus, aquele no qual tudo é permitido. O pastor – sem dúvida, um bom fundamentalista – vai ao fundamento de sua crença e recupera a importância da "parúsia", que é a segunda vinda do Messias (voltarei a essa palavra). O pensador dialoga com os agnósticos e os ateus e, na prática, os incita a considerar a dimensão religiosa um dado da cultura ao menos – sem deixar de declarar a supremacia da fé, tomada como sinônimo da esperança.

Seja por conta da crítica severa ao marxismo, seja por causa da caracterização dualista que faz do progresso – "em mãos erradas (...), tornou-se um progresso terrível no mal" –, não faltará quem veja nas palavras de Bento XVI a expressão de um insofismável reacionarismo. Será? Segundo o papa, a ditadura do proletariado, imaginada por Marx como uma etapa necessária do comunismo futuro, não deu à luz um mundo sadio, "deixando atrás de si uma destruição desoladora". Alguém se atreve a negar? E Bento XVI vai além: "(Marx) esqueceu que o homem permanece sempre homem. (...) Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis".

Entenda-se: Bento XVI não está ressuscitando a Guerra Fria, a disputa pela hegemonia mundial entre o capitalismo e o socialismo. Essa batalha já foi vencida pela civilização do óbvio no século passado, e a economia de mercado triunfou como atributo ou da Criação ou do progresso natural da humanidade – cada um escolha a causa que lhe parecer melhor. O que o papa faz é tomar o marxismo como exemplo máximo de uma visão totalizante do ser, em que a ética se subordina apenas à dimensão material da vida. Certamente não é a única corrente de pensamento a fazê-lo, mas se tornou a mais influente e convincente das visões materialistas. Escreve o papa: "Se ao progresso técnico não corresponde um progresso na formação ética do homem, no crescimento do homem interior, então aquele não é um progresso, mas uma ameaça para o homem e para o mundo".

Bento XVI critica, assim, a visão de mundo segundo a qual o bem-estar humano é mera decorrência das estruturas, "por mais válidas que sejam". Observa que a "liberdade necessita de uma convicção". Afinal, se as condições materiais do indivíduo garantissem, por si mesmas, a sua felicidade, forçoso seria concluir que estaria abolida toda escolha – e, por conseqüência, a liberdade. Os totalitarismos do século passado e suas manifestações remanescentes neste século jamais se assumiram como tais. Em todos eles, sempre há uma retórica meritória que apela à reforma das estruturas em nome do bem comum. Mas com quais valores se pretendeu e se pretende construir esse novo homem? E o papa recorre ao filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) para responder: "Não há dúvida de que um ‘reino de Deus’ realizado sem Deus – e, por conseguinte, um reino somente de homem – resolve-se, inevitavelmente, no ‘fim perverso’ de todas as coisas (...). Já o vimos e vemo-lo sempre de novo".

O "reino de Deus sem Deus" é uma referência também à ciência. Chega a parecer um tanto estranho e talvez vire motivo de pilhéria que o papa, em 2007, aponte um "equívoco" do filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), passados quase 400 anos de sua morte. E ele o faz. Trata-se de um pretexto para contestar que o homem possa ser salvo apenas pelo conhecimento científico, sem o concurso da fé. Nesse momento da encíclica (parágrafo 25), Bento XVI está se preparando para admoestar também os cristãos.

Não é segredo que a pesquisa, especialmente no campo da genética, se confronta com limites que são de natureza ética, e a religião, o catolicismo em particular, tem sido a porta-voz do que costuma ser caracterizado na imprensa e no debate público como a expressão de um preconceito, de um "medievalismo". Não quero fugir ao propósito deste texto, que é o de apresentar as linhas gerais de um documento de cinqüenta parágrafos e 18.822 palavras, para abrir uma frente particular de debate. Observo apenas que, para Bento XVI, "a ciência pode contribuir muito para a humanização do mundo e dos povos", mas "também pode destruir o homem e o mundo se não for orientada por forças que estão fora dela".

Cumpre perguntar: o que são essas "forças fora da ciência" que devem orientá-la, assim como devem orientar a política e a vida cotidiana? Bento XVI observa que, para um cristão, "o homem é redimido pelo amor", mas este também não basta, porque a mortalidade evidencia a fragilidade dessa resposta. E o papa exalta, então, o outro amor, o "incondicionado". E convida o leitor ao mesmo fervor de São Paulo: "Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Rom 8,38-39).

Disse que voltaria à palavra "parúsia", a segunda vinda do Messias, e que Bento XVI fazia uma admoestação também aos cristãos. Esses dois fios soltos do texto se enlaçam agora. O papa reitera que a promessa do retorno de Jesus – "de novo há de vir em sua glória para julgar os vivos e os mortos" – é parte "central" do "grande Credo" da Igreja. E, portanto, cabe a quem crê viver a certeza da justiça de Deus. A evolução da iconografia foi tornando o Juízo Final "ameaçador e lúgubre", mas deve ser a grande fonte de esperança de um cristão.

Ocorre que a força salvífica da fé, aponta Bento XVI, tem de ser coletiva. E aqui está a admoestação: "Devemos constatar também que o cristianismo moderno, diante dos sucessos da ciência na progressiva estruturação do mundo, tinha se concentrado em grande parte somente sobre o indivíduo e a sua salvação. Desse modo, restringiu o horizonte da sua esperança e não reconheceu suficientemente sequer a grandeza da sua tarefa".

Finalmente, cumpre indagar, juntamente com os ateus – dos quais o marxismo foi e é a expressão mais influente: num mundo onde as injustiças são tão candentes e onde os inocentes padecem as maiores crueldades, é possível falar de um Bom Deus? Esse Deus tem de ser contestado em nome da moral, não é? E o papa responde: "Se, diante do sofrimento deste mundo, o protesto contra Deus é compreensível, a pretensão de a humanidade poder e dever fazer aquilo que nenhum Deus faz nem é capaz de fazer é presunçosa e intrinsecamente não verdadeira. Não é por acaso que dessa premissa tenham resultado as maiores crueldades e violações da justiça".

Além ou aquém do Mistério, a fé nesse Deus de que nos fala Bento XVI é também uma garantia dos direitos essenciais do homem. O cristianismo, afinal, é um humanismo. É o que diz o pensador. É o que diz o pastor.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A SUPERIORIDADE DOS PIORES

A superioridade dos piores Artigo de Olavo de Carvalho publicado no site www.midiasemmascara.com.br em 22 Dezembro 2010.
Artigos - Movimento Revolucionário

Praticamente não há manobra política, tática ou estratégica, que não tenha surgido antes como artifício literário.

Já citei várias vezes a máxima de Hugo von Hofmannsthal, profundamente verdadeira, de que nada está na política de um país sem estar primeiro na sua literatura. Uma das decorrências dela é que, sem extenso conhecimento da história cultural e literária, o observador só capta, dos fatos políticos, a forma final ostensiva com que aparecem no noticiário do dia, sem nada enxergar das correntes profundas onde se formaram e onde poderiam, em tempo, ter sido modificados.

Praticamente não há manobra política, tática ou estratégica, que não tenha surgido antes como artifício literário. A razão disso é simples: ninguém pode fazer o que primeiro não imaginou, e explorar as possibilidades do imaginário social, tornando-as pensáveis na linguagem comum, é a função precípua dos artistas da palavra.

Na "direita" brasileira, a obsessão da economia, da administração e do marketing leva muitos pretensos "homens práticos" aos erros mais pueris e desastrosos, que poderiam ter sido evitados com um pouco de cultura literária.

Vou dar-lhes um exemplo chocante. Quando hoje em dia vocês vêem terroristas dando lições de moral, narcotraficantes e sequestradores passando pito em senadores e deputados, travestis vestidos de freiras forçando um padre a lhes dar a comunhão, ou o próprio presidente da República enaltecendo os bandidos das Farc como pessoas honestas, que têm todo o direito de ascender ao poder de Estado, vocês ficam naturalmente desorientados - e não sabem como reagir diante de condutas tão cínicas e descaradas, que vão se multiplicando aos olhos de todos, até o ponto de se impor como práticas normais e legítimas.

É um fenômeno que tende a expandir-se ilimitadamente e que só poderá ser detido à custa de uma trabalhosíssima e quase impossível reeducação de toda a sociedade. Mas poderia ter sido estrangulado na origem, se os liberais e conservadores, em lugar de ficar hipnotizados ante os acontecimentos mais vistosos, se dessem o trabalho de ver como essas coisas nascem e se desenvolvem numa discreta penumbra antes de aparecer estrepitosamente nas manchetes.

Essas e outras táticas abjetamente maliciosas, que já se tornaram parte do nosso cenário quotidiano, apareceram, como em geral todos os componentes do que viria a ser a técnica da "espiral do silêncio", no século 18; e, como não poderia deixar de ser, apareceram primeiro como um recurso de técnica literária.

Seu inventor foi Denis Diderot, um gênio perverso da propaganda revolucionária. Para criá-la, ele se apoiou na velha tradição dramatúrgica do "bobo da corte" - o personagem de baixo nível social que, justamente por sua aparência desprezível, desempenha o papel de fiscal da classe dominante, com a permissão e sob a proteção desta última, à qual serve como espelho amplificador onde ela enxerga seus defeitos e fraquezas.

Tanto na dramaturgia quanto, com frequência, na própria realidade histórica, o bobo da corte foi durante séculos uma peça essencial no aparato perceptivo dos governantes, que através dele podiam tomar consciência de seus pontos cegos, evitando embriagar-se em ilusões perigosas e assegurando um domínio mais firme sobre a realidade das situações.

Diderot descobriu que, com pequenas modificações, o bobo poderia tornar-se um instrumento voltado, não à orientação e correção da classe dominante, mas à sua destruição. Bastava, para isso, acrescentar à inferioridade social do personagem alguns traços de perversidade moral genuína, conservando-o, ao mesmo tempo, no seu papel de fiscal e crítico da moralidade do mundo.

No diálogo O Sobrinho de Rameau, (1761) Diderot criou a figura daquilo que viria depois a chamar-se, nos estudos literários, o "heroi abjeto" (leiam o estudo magistral de Michael André Bernstein, Bitter Carnival: Ressentiment And The Abject Hero, Princeton University Press, 1992). É um tipo declaradamente inferior, não só do ponto de vista social como o velho bobo da corte, mas humano e moral. É um vigarista, um criminoso cínico, um sociopata na mais legítima acepção do termo - mas, por isso mesmo, está na posição perfeita para enxergar a sociedade inteira como um tecido de crimes, projetando nela a sua própria torpeza de alma e interpretando tudo pela ótica corrosiva de um discurso de acusação verdadeiramente infernal.

O exemplo frutificou, mas não somente na literatura. Alastrou-se pela retórica política e se tornou um lugar-comum da propaganda revolucionária. Cinco anos após a morte de Diderot, seu personagem já havia se multiplicado em milhares de criminosos de verdade, grandes e pequenos, que, exaltados pela Revolução, subiam aos púlpitos e às cátedras para verberar, do alto da sua incontestada autoridade moral, os pecados da sociedade.

Quando uma idéia literária se consagra como um topos, um lugar comum da retórica política, já é impossível impedir que as pessoas enxerguem a realidade sob a sua ótica deformante. Os fatos, por mais numerosos e evidentes, já nada podem. Digam eles o que disserem, o automatismo do imaginário os reconstruirá à sua maneira, dando-lhes, de novo e de novo, o sentido fictício que se consagrou no topos.

Fora da França, a transmutação do "heroi abjeto" em arma de combate político foi mais lenta, mas nem por isso menos irreversível. Primeiro veio a crença de que os criminosos são vítimas passivas da sociedade, e não autores dos seus próprios atos. Depois, a transfiguração das pretensas vítimas em símbolos dos valores morais genuínos, que a sociedade hipócrita usurpara. Por fim, o símbolo tornou-se realidade: criminosos, prostitutas e psicopatas já não somente "representavam" o melhor da sociedade, mas o carregavam em si como qualidade pessoal concreta.

Quando, desde os anos 50, o proletariado foi excluído da condição de protagonista maior da mutação revolucionária, e a Escola de Frankfurt consagrou em lugar dele os marginais de toda sorte, estava tudo pronto para que o cinismo dos piores se impusesse como encarnação da respeitabilidade máxima, acusando e humilhando a todos e jogando as pessoas de bem na lata de lixo da "espiral do silêncio".

CRIME E CASTIGO DENTRO DE NÓS.

Crime e castigo dentro de nós
Artigo de Reinaldo Azevedo em "Veja On Line" publicado no dia 28/03/2007 ou no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo

"O endurecimento da legislação penal serve, sem dúvida, à diminuição da impunidade, para o que devem concorrer também as leis as mais objetivas, com aplicação severa. Mas ninguém inventou ainda um instrumento útil que possa substituir a consciência individual"

"Só é criminoso quem quer; trata-se de uma escolha." Fiz essa afirmação no meu blog, em VEJA on-line, para escândalo de muitos. Os esquerdistas ficaram furiosos. Como sempre, falam antes e pensam depois. A esquerda, pouco importa o matiz, vive ainda no marxismo do século XIX. É incapaz de entender o homem como um ser dotado de vontade, apto a fazer opções, equipado para distinguir o bem do mal. Seu aparato analítico é fruto do naturalismo do século retrasado, quando o pensamento foi dominado pelo determinismo científico.

Imaginou-se, então, que tudo o que fosse humano estava subordinado a um conjunto de variáveis alheias às vontades. Até a economia, se bem se lembram, se inseria numa seqüência mecânica, etapista, decidida no mundo das idéias. Ah, quem diria que Karl Marx (1818-1883), um materialista, era, de fato, um discípulo do pior platonismo!? Quem se debruçou sobre sua obra sabe disso: só resistia ao socialismo, "fantasma" (termo apropriado) que rondava a Europa, quem estava a contrapelo da marcha da civilização. Por isso, os que combatiam o modelo não eram apenas conservadores de uma ordem moribunda (o capitalismo), mas reacionários. E não adiantava espernear: como se diz em má poesia, ninguém conseguiria impedir a chegada da primavera; no máximo, retardá-la. O socialismo estava inscrito em nossa caminhada evolutiva. O "novo homem" era uma construção coletiva e um destino.

A economia, a literatura, a psicologia, a sociologia, a antropologia, todo conhecimento, enfim, à medida que cedia à crítica da razão idealista e aderia a uma suposta razão iluminista, buscava substituir o exame de consciência, estimulado pela fé cristã, por um conjunto de causalidades exteriores: o homem já não precisava mais se confessar à sua consciência ou a seu sacerdote: bastava que se justificasse no tribunal da história. Um contemporâneo de Marx, o escritor russo Fiodor Dostoievski (1821-1881), estava no limite dessas duas eras. Situa o homem na fronteira entre a racionalização que justifica o crime e a consciência que produz a culpa. Se não leram ainda, leiam um dia o romance Crime e Castigo. Juntamente com o personagem Raskolnikov, cometam um homicídio (de fato, dois) por razões até muito "justas". E percorram o calvário que conduz ao arrependimento e, infelizmente no caso do romance, à redenção. Escrevo esse "infelizmente" porque o fim empobrece a obra, embora engrandeça a piedade que Dostoievski sentia de todos nós.

O que interessa em Raskolnikov? O sofrimento posterior ao crime não deriva da pressão social ou das dificuldades que encontra, na sociedade, por ser um assassino. O que lhe corrói a alma é sua consciência e, eu ousaria dizer, uma espécie de ancestralidade humanista que o confronta com o horror, tema também de outro romance do escritor russo, Os Irmãos Karamazov. Nenhuma força é tão poderosa para conter a mão assassina quanto uma interdição que está além da ordem prática do mundo, de seu utilitarismo, das exigências pragmáticas. A isso chamamos "moral individual", que pode ou não ser influente, que pode ou não estar ligada a uma tradição cultural.

Atribui-se, aliás, a Dostoievski a frase: "Se Deus não existe, tudo é permitido". Mais ou menos. É bom contextualizar. Quem escreveu isso foi Sartre (1905-1980), em O Existencialismo É um Humanismo. No autor russo, há coisa parecida. Aliocha Karamazov, o santinho de Os Irmãos Karamazov, diz em tom de censura a Ivan, o intelectual ateu e verdadeiro cérebro do parricídio praticado por Smerdiakov (o quarto irmão é Dimitri): "Mas, se Deus não existe, então não há crime e não há pecado; tudo é permitido". A afirmação era feita em tom de censura. No Capítulo 9 do Livro 11, Ivan ouve a mesma afirmação, aí feita pelo diabo, que vem a ser a razão cínica que dilui qualquer postulado moral.

Por que Dostoievski está, a meu juízo, alguns degraus acima do que se produziu no século XIX – talvez, vá lá, nem tanto como literatura, mas como indagação moral? Porque não se limitou a ser o cronista de uma crise de valores ou o apologista de um novo saber, como era a moda. Sua literatura só existe porque a moral religiosa sofria o assédio e o cerco da razão avassaladora, com seus instrumentos de medição científica, diante dos quais todo saber, considerado então convencional, era relativo e, para muitos, descartável. Raskolnikov e Ivan Karamazov, nesse sentido, são homens absolutamente modernos.

Quem me acompanhou até aqui deve imaginar qual é o fato público que está na origem deste texto. Sim, é o assassinato brutal do menino João Hélio, no Rio de Janeiro. Àquele episódio, seguiu-se a retórica farisaica que tenta emprestar metáforas novas àquelas teses do século retrasado: existiria uma ciência fora da consciência individual, privada, que explicaria o crime; estaríamos diante de fatores, todos eles sociais, que expropriariam dos assassinos a decisão de matar. O curioso é que a mesma esquerda que pretende fazer dos facinorosos menores morais, incapazes de se decidir entre o bem e o mal, não se atreve a pedir que lhes seja cassado, por exemplo, o direito de voto. Quem não está equipado para escolher entre a vida e a morte deve exercer que outro direito de escolha?

Voltemos, então, um pouco no tempo: "Quando as leis forem fixas e literais, quando só confiarem ao magistrado a missão de examinar os atos dos cidadãos, para decidir se tais atos são conformes ou contrários à lei escrita; quando, enfim, a regra do justo e do injusto, que deve dirigir em todos os seus atos o ignorante e o homem instruído, não for um motivo de controvérsia, mas simples questão de fato, então não mais se verão os cidadãos submetidos ao jugo de uma multidão de pequenos tiranos, tanto mais insuportáveis quanto menor é a distância entre o opressor e o oprimido".

Trata-se de um trecho do Capítulo 4 de Dos Delitos e das Penas, do italiano Cesare Beccaria (1738-1794). É justamente o trecho da obra em que ele ataca o arbítrio dos juízes ao interpretar o "espírito da lei", o que abre espaço para toda sorte de subjetivismos. Notável pensador. Beccaria, que combateu a prática da tortura e do tratamento cruel aos presos, não obstante, queria uma lei a mais objetiva, voltada à proteção dos que não eram criminosos. E explicava por quê: "Com leis penais executadas à letra, cada cidadão pode calcular exatamente os inconvenientes de uma ação reprovável; e isso é útil, porque tal conhecimento poderá desviá-lo do crime. Gozará com segurança de sua liberdade e dos seus bens; e isso é justo, porque é esse o fim da reunião dos homens em sociedade".

As leis são manifestações do pacto que todos firmamos em sociedade. Mas jamais terão o poder de incutir uma moral, por mais tolerantes que sejam, a quem considera que tudo lhe é permitido. Aquela crise que Dostoievski identificou no fim do século XIX, se quiserem saber, ainda é a nossa. O endurecimento da legislação penal serve, sem dúvida, à diminuição da impunidade, para o que devem concorrer também as leis as mais objetivas, com aplicação severa. Mas ninguém inventou ainda um instrumento útil que possa substituir a consciência individual. Eu, a exemplo de Aliocha, também considero que, se Deus não existe, então não há crime e não há pecado. E até concedo que possa haver uma outra religião, não revelada, mas construída, a que se possa chamar, talvez, de humanismo.

Pouco importa se é Deus o ente a nos indagar ou um outro valor igualmente constituído de respeito ao próximo e de tolerância. A verdade é que a lei será sempre impotente para conter a mão criminosa se houver algo em nossa consciência a dizer que tudo nos é permitido. Olhem à volta: o que é que lhes diz o mundo contemporâneo?

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

SE BOM, POR QUE PETISTA; SE PETISTA, POR QUE BOM? Ou: Lula escancara o esforço para tutelar Dilma e lembra à cúpula do PT quem, de fato, é o chefe.

Por Reinaldo Azevedo no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo
Lula escancara o esforço para tutelar Dilma Rousseff e lembra à cúpula do PT quem, de fato, é o chefe.

O Babalorixá de Banânia se reuniu ontem com a Executiva Nacional do PT no Palácio da Alvorada e estabeleceu prioridades do partido — ou, se quiserem, ele definiu “a” prioridade: aprovar o projeto para controlar a imprensa, de autoria do ministro da Supressão da Verdade, Franklin Martins. É bem verdade que Franklin transforma em esmero autoritário o seu rancor, mas que não se tenha dúvida: a proposta é do Apedeuta! É Lula quem quer “controlar a mídia” O encontro, dada a pauta, é uma óbvia manifestação de desrespeito com a presidente eleita, Dilma Rousseff, e escancara o esforço de tutela.

Não estou entre aqueles que ficam separando bom petista de mau petista. Meu juízo é mais simples: se bom, por que petista; se petista, por que bom? Dilma saiu do nada e se elegeu nas costas de Lula, é fato. Mas também é fato que chegou ao cargo segundo as regras estabelecidas pelas instituições brasileiras. Ela até pode ser tutelada e gostar disso, mas a Presidência não é. E o Babalorixá já está num esforço furioso para deixar claro quem manda. Por mais que Dilma esteja decidida a ter um comportamento sabujo nos quatro anos vindouros; por mais que ela saiba que não poderá ir contra a vontade do “chefe”, há um espaço de arbitragem que lhe é exclusivo. Ou ela o exerce ou não governa.

A reunião de ontem serviu para Lula deixar claro que o “controle da mídia” é uma prioridade. E ainda desafiou seus comandados: “Quero ver quem vai afinar, hein?”. A frase é expressão de certa tensão na rua petista. No tal seminário da TV Cultura, Franklin afirmou:

“Ainda vou precisar de mais umas duas, três semanas, para mandar para ela [Dilma] o projeto, e aí ela vai ver o que ela faz. Com aquele caminhão de votos que ela teve, ela decide”.

Ele está errado. Quem decide nessa matéria é a Constituição. A última coisa de que Dilma precisa no primeiro ano de mandato é comprar uma briga com a imprensa. Ao contrário até: para ela, a paz é muito melhor. Mas Lula quer a guerra.

Também nessa reunião, ele voltou a se referir ao mensalão e jurou trabalhar para provar que se tratou de uma farsa. Anunciou ainda a disposição de lutar pela reforma política e pelo financiamento público de campanha. Escrevi ontem a respeito dessa patacoada. Em abril, segundo Paulo Vannuchi, que vai coordenar o “Instituto Lula”, a entidade já estará em funcionamento, e o Apedeuta vai se assanhar.

Se Dilma não tomar cuidado, de subordinada de Lula, o que ela aceita passivamente, passa a ser não mais do que uma figura ridícula, decorativa. O chefão já disse ao partido: nessa matéria, é preciso, se for o caso, deixar de lado a presidente e brigar pela regulamentação. “Sem afinar!”

Por Reinaldo Azevedo
Tags: controle social da mídia, Fim da era Lula

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A SÍNDROME DA MULHER DE LOT. Ou: Os jacobinos estão no PT e os outros revolucionários estão nos demais partidos.

A síndrome da mulher de Lot Publicado por Nivaldo Cordeiro no site www.midiasemmascara.com.br| 17 Dezembro 2010
Artigos - Movimento Revolucionário

A oposição ao PT precisa fazer movimentos defensivos para não deixar o Brasil mergulhar no caos, mas sem ter ilusão de que a ala social-democrata seja alguma forma de redenção. Não é.

"Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?
E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
quem deu a própria vida por um único olhar".
Anna Akhmátova

As forças que de fato estão na oposição no Brasil, os liberais e conservadores, estão em sua maior parte fora dos partidos políticos oficiais. Estão dispersas e são minoritárias porque não estão unidas. Elas é que representam a alma coletiva brasileira, apegada que é aos valores tradicionais e à ética liberal-conservadora. A revolução gramsciana em cinqüenta anos conseguiu distorcer a burocracia estatal e os partidos políticos, de tal sorte que a chamada direita foi expulsa do debate político e da representação.

Um enigma está colocado para os cientistas políticos: como interpretar o elenco de forças que controla o Parlamento e os poderes executivos nas diferentes esferas de governo? Eu tenho me empenhado para mostrar que a teoria deVoegelin sobre o movimento revolucionário pode perfeitamente bem ser aplicada ao Brasil. Voegelin mostrou que as forças revolucionárias normalmente são compostas por dois pólos. De um lado, os jacobinos, que puxam o processo e mais das vezes triunfam. Na esteira da sua vitória vem o caos, porque a mente revolucionária não tem como se adequar ao real. Foi assim na Revolução Francesa, na Russa e em toda parte. Então surge o outro pólo, "conservador", que põe ordem ao caos sem, todavia, perder a sua condição de membro da revolução.

No Brasil os jacobinos estão no PT e nas tendências à esquerda do PT, que clamam pela imediata implantação do "verdadeiro" socialismo. Essas forças auxiliares são o PSOL, o PCdoB e assemelhados. Têm a urgência dos jacobinos e a radicalidade dos puros revolucionários. O pólo considerado conservador está concentrado no PSDB e no PMDB, as instâncias que, nascidas da mesma mente revolucionária, não perderam de todo o princípio de realidade e funcionam como freio para que a esquizofrenia jacobina não jogue o país no caos e na guerra civil.

É da mais absoluta importância compreender a dialética estabelecida entre os dois grupos políticos para que os opositores dispersos saibam o que estão fazendo. Apoiar José Serra na recente eleição presidencial era a única opção racional, mesmo que saibamos que ele mesmo nasceu do movimento revolucionário e que, em algumas teses, está à esquerda de Lula. Da mesma forma, foi essencial que houvesse segundo turno, sob pena dos jacobinos sentirem-se fortalecidos para o salto final da sua aventura revolucionária.

Eleger Geraldo Alckmin em São Paulo teve a mesma importância. Na verdade, os opositores precisam fazer movimentos defensivos para não deixar o Brasil mergulhar no caos, mas sem ter ilusão de que a ala social-democrata seja alguma forma de redenção. Não é. Ela é apenas um freio para que alguma forma de ordem prevaleça e a vida prática não seja inviabilizada pelas tolices políticas tornadas força de lei.

Aqueles conservadores que olham o passado revolucionário de gente como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e quejandos e apontam o dedo dizendo que são iguais ao PT estão desesperadamente errados, porque sofrem o que chamo de "síndrome da mulher de Lot", só olham para o tempo passado. É preciso agir politicamente olhando para frente. Como nos conta o Gênesis, a mulher de Lot foi petrificada em uma estátua de sal por olhar para trás, contrariando ordens expressas de Deus. O que importa é o devir.

Objetivamente o PT e o PSDB diferem grandemente, dentro das suas semelhanças. O PSDB não tem o ímpeto mudancista e contrário ao direito natural como tem o PT. Basta ver os temas salientados na última campanha eleitoral, como o da liberdade de imprensa, do aborto, das relações internacionais. O equilíbrio político que emergiu das eleições não permitirá ao PT avançar na agenda transformadora. Não tem maioria no Senado e não tem os governos dos principais estados federados, como Minas Gerais e São Paulo.

Esse equilíbrio permitirá que as verdadeiras forças de oposição tenham tempo para se organizar e produzir a ciência política necessária para se tornar uma verdadeira alternativa de poder. Sem esse equilibro entre os pólos opostos do movimento revolucionário o Brasil poderia facilmente cair no caos de triste memória, em todos os lugares em que os jacobinos não tiveram um freio para suas alucinações políticas. Melhor que seja assim.

"MERCADANTE: DEVOLVA O DOUTORADO!"

Por Reinaldo Azevedo no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo
ESTE BLOG LANÇA MAIS UMA CAMPANHA CÍVICA: “MERCADANTE, DEVOLVA O DOUTORADO”
No dia 16 de agosto de 2006, este blog surpreendia o mundo (!!!) com o post Mercadante doutor pela Unicamp? É mentira!. Pois é… Estava lá na sua biografia, e ele repetia essa inverdade no horário eleitoral. Teve de se corrigir logo depois, acrescentando que havia cursado apenas “um ano”, sem entregar a tese. Era um falso doutor. Na semana passada, ele corrigiu a questão no “cartório” da Unicamp. E continua um falso doutor.

Como vocês devem ter lido, ele apresentou uma “tese” sobre o… governo Lula! Convidou para a banca Delfim Netto, João Manoel Cardozo de Mello, Luiz Carlos Bresser Pereira e Ricardo Abramovay. E deitou falação à vontade em defesa das conquistas do governo Lula, em tom de comício, atacando, como não poderia deixar de ser, o governo FHC. Até os camaradas ficaram um tanto constrangidos e se viram obrigados a algumas ironias.

Informou a Folha no sábado:
Coube ao ex-ministro Delfim Netto, professor titular da USP, a tarefa de dar o primeiro freio à pregação petista. “Esse negócio de que o Fernando Henrique usou o Consenso de Washington… não usou coisa nenhuma!, disse, arrancando gargalhadas. “Ele sabia era que 30% dos problemas são insolúveis, e 70% o tempo resolve.” Irônico, Delfim evocou o cenário internacional favorável para sustentar que o bolo lulista não cresceu apenas por vontade do presidente. “Com o Lula você exagera um pouco, mas é a sua função”, disse. “O nível do mar subiu e o navio subiu junto. De vez em quando, o governo pensa que foi ele quem elevou o nível do mar…”

“O Lula teve uma sorte danada. Ele sabe, e isso não tira os seus méritos”, concordou João Manuel Cardoso de Mello (Unicamp), que reclamou de “barbeiragens no câmbio” e definiu o Fome Zero como “um desastre”. À medida que o doutorando rebatia as críticas, a discussão se afastava mais da metodologia da pesquisa, tornando-se um julgamento de prós e contras do governo. Só Luiz Carlos Bresser Pereira (USP) arriscou um reparo à falta de academicismo da tese: “Aloizio, você resolveu não discutir teoria…”. Ricardo Abramovay (USP) observou que o autor “exagera muito” ao comparar Lula aos antecessores. “Não vejo problema em ser um trabalho de combate”, disse. “Mas você acredita que o país estaria melhor se as telecomunicações não tivessem sido privatizadas?”


Ridículo
Mercadante, um homem destemido, comprovadamente sem medo do ridículo, não teve dúvida: respondeu a questão — ou melhor: não respondeu — atacando o preço dos pedágios em São Paulo!!! E saiu de lá com o título de “doutor”, conquistado com uma peroração de caráter puramente político. E ATENÇÃO PARA O QUE VEM AGORA.

COMO SABEM TODOS OS JORNALISTAS DE ECONOMIA DESTEPAIZ, Mercadante se esforçou brutamente ao longo de 2003 para derrubar Antônio Palocci. Não houve repórter da área a quem não tenha dado um off pregando o que se chamava, então, “Plano B” na economia. E, agora, faz-se doutor defendendo o que combateu. Um portento.

Grande momento
No sábado, o economista Alexandre Alexandre Schwartsman escreveu um post em seu blog, Mão Visível, que faço questão de reproduzir aqui — aliás, a ilustração e a legenda também vêm de lá. Leiam. Volto em seguida.

O grande momento da defesa — e sem se pendurar no saco!


Minha primeira reação à defesa de tese do Mercadante foi, confesso, de escárnio. Pensei: “se restava ainda alguma dúvida que um doutorado em Economia [corrigi depois que fui alertado] pela Unicamp e nada fossem a mesma coisa, o senador a dirimiu e, com isso, finalmente fez alguma coisa servindo ao interesse público”.

Entretanto, a conclusão lógica é bem pior do que minha afirmação (não que ela deixe de ser verdadeira, longe disso). A rigor, se ele conseguiu o título de doutor em Economia “defendendo” uma tese que consiste numa inédita homenagem à sabujice, para que vale o título mesmo?

A mensagem (apropriada para que demonstra tamanha subserviência a um presidente que, sempre que pode, louva sua própria falta de educação) é simples e direta: todos vocês que ralaram para completar seus doutorados, passando noites em claro, conciliando (como vi de perto) a necessidade de trabalhar com a ambição de terminar uma tese, são uns otários.

Basta colocar no papel uns tantos elogios ao governante de plantão, juntar meia dúzia de compadres dispostos a participar da farsa, achar um departamento que se sujeite a este tipo de coisa e, parabéns, você é o mais novo doutor em Economia do Brasil, sem ter feito qualquer, minúscula, mísera migalha de contribuição para o desenvolvimento da ciência. De quebra, desmoralizou um título que muita gente boa teve que trabalhar duro para conquistar.

Talvez dê para descer um pouco mais, mas, sinceramente, vão ter que se esforçar.

Voltei
Bem, meus caros, o que resta a este blog? Lançar mais uma campanha cívica, de caráter nacional: “MERCADANTE, DEVOLVA O DOUTORADO”!

Por Reinaldo Azevedo
Tags: Mercadante doutorado

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A SÍNDROME DA INVEJA DO PRÓPRIO PÊNIS (SIPP) É UMA DOENÇA ANTIGA. CALÍGULA, POR EXEMPLO, PADECIA DESSE MAL...

A Síndrome da Inveja do Próprio Pênis (SIPP) é uma doença antiga. Calígula, por exemplo, padecia desse mal…
Por Reinaldo de Azevedo no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo

Perguntam-me se acredito que a SIPP — Síndrome da Inveja do Próprio Pênis — tem cura. Bem, a doença, certamente muito antiga, foi descrita há pouco tempo. Nem mesmo se fizeram os testes administrando-se, em grupos distintos, placebo e Croridrato de Simancol. Mas tudo indica que a SIPP se enquadra na categoria das psicopatias. Ou seja…

Não! Lula não é o primeiro a padecer desse mal. Um caso clássico, relatado por um historiador — na verdade, cronista — é Calígula, o imperador romano. Eu me lembrava de ter lido em Suetônio — em Os Doze Césares — detalhes de sua vida que remetiam à síndrome. Tiro o livro da estante e batata! Calígula era um que tinha inveja do próprio pênis. Seu fim foi trágico. Abaixo, traduzo na carreira um trecho.

O rapaz viveu apenas 29 anos. Aos 25 e alguns meses, foi sagrado imperador. Reinou por três anos, 10 meses e oito dias, até ser assassinado. O relato que Suetônio faz de Calígula antes de sua chegada ao topo dá conta de um jovem belo, generoso, altivo, amado por todos, bom soldado, justo, sedutor etc. O príncipe virou um sapo. Leiam. Volto em seguida:

(…)
Mas lhe disseram que era superior a todos os príncipes e reis da terra, e então começou a atribuir a si mesmo a divina majestade. Fez trazer da Grécia as estátuas dos deus mais famosos (…) entre elas a de Júpiter Olímpico, da qual cortou a cabeça para substituir pela sua própria. Estendeu até o Fórum uma ala de seu palácio e transformou o templo de Castor e Pólux num pátio, sentando entre os dois irmãos, oferecendo-se à adoração da multidão. Alguns o saudavam como Júpiter Latino. Teve, para a sua divinização, o seu príoprio templo, sacerdotes e as oferendas mais raras. Nesse templo, podia-se contemplar sua estátua de ouro (…). As vítimas sacrificados a este deus eram flamingos, pavões, codornas, galinhas da Numídia, galinhas d’angola, faisões — a cada dia uma espécie diferente.


À noite, quando a lua estava cheia, ele a convidava a vir receber o seu abraço e a compartilhar seu leito. Durante o dia, mantinha conversações secretas com Júpiter Capitolino, falando-lhe algumas vezes ao ouvido

Por Reinaldo Azevedo
Tags: Bobagens de Lula, Calígula

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

NÃO HÁ DÚVIDA QUE O PETISMO É UM SISTEMA. Ou: DELÍRIOS, CONSTERNAÇÃO, LÁGRIMAS, APREENSÃO E PROVOCAÇÃO.

Por Reinaldo Azevedo no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo
Delírios, consternação, lágrimas, apreensão e provocação

Não há dúvida de que o petismo é um sistema. As regras de funcionamento da Máquina, em boa parte, não dependem do governante de turno, o (a) titular da Presidência da República, que é só a figura institucional. Quem manda é o chefe do partido. Lula, hoje, é o comandante das duas faces: a que está mais ou menos exposta à luz da imprensa — o Poder Executivo — e a que se protege nas sombras: o PT, suas franjas e a base material desse poder, composta de sindicatos, estatais e fundos de pensão. A substituição de Lula por Dilma na Presidência não altera substancialmente o modelo. “A Máquina” continuará no comando. Ainda assim, percebe-se um clima de consternação com a chegada da hora… Faltam apenas 16 dias. Essa consternação deriva de um misto de incerteza sobre o futuro, cobrança para que nada mude e, em alguns casos, quem sabe?, um tantinho de desânimo.

Vamos tentar entender. Ainda que Dilma, em certa medida, represente mais do mesmo, e isso é fato, há que se considerar que Lula é um fenômeno irrepetível da política. E o é menos por suas peculiaridades, compostas de virtudes e defeitos, do que por conta de uma espécie de doença moral que tomou conta da política, que faz dele uma figura inimputável. Os políticos, da base e da oposição, temem a sua língua ferina, a sua impressionante capacidade de desqualificar os que dele discordam e a ligeireza com que evoca as “desigualdades” do Brasil para justificar qualquer coisa. Se criticam alguma medida de seu governo, trata-se da voz das elites; se seu filho é flagrado num negócio meio inexplicável com um empresa de telefonia, ele logo denuncia o preconceito contra o operário: parece Chico Buarque explicando Jabuti em cima de árvore: “Só porque sou cantor…”

Pode não parecer, mas isso ajuda a resolver muitas crises — a matar algumas delas na origem. Ele só não foi à lona durante o mensalão porque as oposições ficaram com receio desse Lula popular, que se disse, no mês passado, “encarnação do próprio povo”. Estourava um escândalo, lá estava ele para servir de pára-raios, denunciando a conspiração — em especial a da imprensa, que não estaria interessada em reconhecer os seus méritos. A consternação da petezada, que ainda vai se exacerbar — faltam muitos cântaros de lágrimas; imaginem a despedida no dia 1º… — nasce da certeza de que o partido não contará mais com esse ativo.

Nem Dilma nem ninguém têm essa capacidade. Porque, reitero, agora esclarecendo, estamos falando menos e uma virtude de Lula do que da inimputabilidade em que ele transita, feita de um misto de consciência culpada e estudada generosidade das elites políticas: “Ele é um operário, filho de mãe que nasceu analfabeta (!), deixem que fale”. Ninguém quer comprar briga com o mito. Lula é isso? Claro que não! Ele é, de fato, o chefe de uma das maiores máquinas partidárias do Ocidente. Caso se considere que seu partido administra o patrimônio dos fundos de pensão, não há organização partidária no mundo mais rica do que o PT — o PC chinês é outra coisa; não é obrigado a disputar o poder com ninguém; não se distingue do estado.

Os petistas continuarão incrustados na maquina, eu sei. Eu mesmo apontei aqui que o primeiríssimo escalão de Dilma é mais lulista do que o do próprio Lula. Mas há coisas que ela não poderá fazer simplesmente por não ser ele. O processo político certamente não estará de joelhos diante dela esteve diante dele ao longo dos oito anos. O manancial metafórico da futura presidente não trará aquela rusticidade no fundo cômica, mas transformada quase em poesia, de seu antecessor. Não se vê uma Dilma em cima do palanque, suarenta, dedo em riste, olhos injetados, a defender os corruptos de sua base na suposição de que ela lutou contra a corrupção mais do que ninguém… Não estou dizendo que a petista não pudesse gostar de ter esse “dom”. Estou afirmando que ela não tem porque ninguém lhe reconhece legitimidade para isso.

Para o bem ou para o mal, o Brasil volta a ser governado — ao menos na face visível do governo, não aquela das sombras — por uma pessoa, e isso tende a deixar mais claros os problemas. E também acaba criando arestas entre os próprios aliados. A “máquina” está um tanto assustada.

Na patuscada desta quarta, quando Lula registrou em cartório obras que nem sequer saíram do papel, coube a Franklin Martins, o ministro da Supressão da Verdade, fazer uma provocação. Numa referência direta à ex-ministra e presidente eleita, lembrou que lhe cabe o desafio de fazer um governo “ainda melhor” do que o de Lula — e isso num ambiente em que ele era saudado como o maior estadista da história do Brasil, o que fez 80 anos em 8 etc e tal.

Franklin parece meio bravo com a sucessora de Lula. O encerramento de sua fala queria dizer, obviamente, um sonoro “você não vai conseguir”. Ele não se conforma que ela, até agora, não tenha endossado a sua proposta, que conta com o apoio entusiasmado do presidente, de controlar o conteúdo dos meios de comunicação.Segundo disse outro dia, a presidente eleita teve um caminhão de votos e pode fazer o que quiser. Não pode, não! Só nas ditaduras o governante faz o que bem entende. Gente como Franklin se cria mais facilmente à sombra de um inimputável como Lula do que de alguém como Dilma.

Com uma oposição fraca, parte dela empenhada na sua “(re)afundação”, os primeiros adversários da futura presidente tendem a ser algumas viúvas de Lula.

Texto originalmente publicado às 22h23 de ontem dia 15/12/2010.

Por Reinaldo Azevedo
Tags: Governo Dilma

INDECOROSO ATÉ O FIM - LÍDERES DA AGRESSÃO A SERRA SÃO CONVIDADOS ESPECIAIS DE LULA !!!

Por Reinaldo de Azevedo no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo 16/12/2010
Indecoroso até o fim - Líderes da agressão a Serra são convidados especiais de Lula!!!
Leiam o que informa a Folha. Volto em seguida:

No Palácio do Planalto, sindicalistas acusados de comandar agressão contra José Serra (PSDB) durante a campanha participaram, com ministros e ex-ministros, de evento em que o presidente Lula fez balanço da gestão. José Ribamar Lima e Sandro Cezar, conhecido como “Sandro Mata-Mosquito”, participaram da solenidade como convidados, “representantes dos movimentos sociais”, nas palavras deles. Os dois ganharam notoriedade no segundo turno da eleição. Ligados ao PT, foram apontados pelo PSDB como organizadores de um protesto contra o presidenciável, ato que acabou em tumulto e pancadaria no Rio.

À Folha ambos negaram qualquer atitude hostil contra o então rival da presidente eleita, Dilma Rousseff. “Nos pegaram porque somos peões. Na realidade, não houve agressão nenhuma. Se ocorreu, não fomos nós”, disse “Mata-Mosquito”. Na confusão, Serra foi atingido por um objeto. Para petistas, era uma bolinha de papel. Para tucanos, bobina de adesivos de campanha. Principal responsável pela ida da disputa presidencial ao segundo turno, a senadora Marina Silva (PV-AC) estava na reunião. Ela fez questão de dar um abraço no presidente ao final do evento. (…)

Comento
Em primeiro lugar, eles não são “acusados” de comandar a manifestação. Eles a comandaram. As fotos abaixo deixam isso muito claro. Este senhor de camisa laranja é José Ribamar; o de camisa branca, Sandro Mata-Mosquito. Vocês os vêem liderando a bagunça e posando ao lado de seu grande chefe.



Uma coisa que me intrigou foi o texto da Folha, que joga no lixo do “achismo” o seu próprio furo. Foi um repórter do jornal que gravou, em celular, a imagem em que fica claro que Serra foi atingido por outro objeto, que não uma bolinha de papel.

Quem escreveu o texto que vai acima, fiel, creio, à tese de que se deve sempre prestar atenção ao “outro lado”, chama de “versão tucana” o que é fato e de “versão petista” o que é mentira. E ambas se igualam, de sorte que não há mais diferença entre uma coisa e outra.

Por Reinaldo Azevedo
Tags: Fim da era Lula

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

VEJA A PERGUNTA DE SÉRGIO CABRAL SOBRE O ABORTO: QUEM AQUI NÃO TEVE UMA NAMORADINHA QUE PRECISOU ABORTAR?

Publico aqui o artigo escrito por Nivaldo Cordeiro no site www.nivaldocordeiro.net

A má fé daqueles que se engajam na nefanda causa do aborto teve ontem, com Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro, uma manifestação bastante didática. Vou comentá-la aqui para demonstrar que, sob qualquer ângulo, a questão do aborto é insustentável ante a ética cristã. Pela boca de Sérgio Cabral falou a legião daqueles que fazem o cultivo da cultura de morte, de que nos falava João Paulo II.

O primeiro recurso sofístico cabralino é assumir que a generalização de um vício torna a sua repetição uma necessidade de positivização no sistema jurídico. Foi enfático: "Quem aqui não teve uma namoradinha que precisou abortar? Meus amigos, vamos encarar a vida como ela é", falou, retórico. O problema de ter tido uma namoradinha que levou ao aborto coloca a necessidade de se abrir o olho moral daqueles que estavam cegos para a enormidade do crime que estavam praticando. Ao invés disso, de se buscar a correção do malfeito, o filosofar cabralense propõe o caminho oposto: que se regulamente e permita legalmente o aborto, como se isso fosse algo moralmente aceitável e resolvesse o problema da gravidez indesejada.

O fato que se esconde por detrás da argumentação é que Cabral assume que o corpo é para o prazer e não para as tarefas existenciais, como a procriação. Assume também que o feto não é um ser, é desprovido de qualquer direito. É como uma espécie de verme habitando o ventre da mãe, que pode e deve ser descartado a qualquer tempo. Essa visão é uma alucinação.

Poderíamos repetir: Quem aqui não fumou um cigarro de maconha? Quem aqui não cheirou um pó de cocaína? Quem não avançou um sinal vermelho? Quem deixou de ajudar um cego a atravessar a rua? Quem deixou de ajudar um faminto por dureza do coração? Ora, cada ser é uma coleção continuada de pecados, maiores e menores, e de vícios, e nem por isso essa prática continuada pode servir de fundamento para a sua aceitação moral e jurídica. A repetição inevitável de pecados e vícios não os transforma em seu oposto. O sistema jurídico deve proteger os bons costumes e as virtudes, não os vícios e os crimes conhecidos desde a lei natural.

Para reforçar sua argumentação estúpida ele dá testemunho de que não defende a prática em causa própria: "Fiz vasectomia e sou muito bem casado". Bem sabemos que a defesa institucional do aborto é uma agenda dos chamados globalistas, que defendem o governo mundial, e ela tem por meta alcançar três objetivos: 1- Destruir a ética cristã no que ela tem de mais essencial; 2- Fazer o controle das populações mais pobres, inclusive e sobretudo das populações não brancas; e 3- Destruir a família pela base. Casamentos desfeitos e a não geração de descendentes torna a população atomizada cada vez mais cliente dependente do Estado, que passa a ocupar o papel agregador e protetor da família tradicional. Portanto, nem que Sérgio Cabral tivesse sido castrado ele mudaria sua posição sobre o tema, pois está alinhado com a causa globalista, que peleja sobre o assunto desde a ONU e seus tentáculos.

Continuou: "Do jeito que está, está errado, falso, hipócrita. Isso é uma vergonha para o Brasil. Vamos pegar países onde a religião tem um peso. Espanha, Portugal, França, Inglaterra, Estados Unidos. Eles gostam menos da vida do que nós? Esse é o ponto." Esse é um típico argumento globalista. Eles tentam simultaneamente obter sua vitória política em todos nos países. Quando conseguem em algum parametrizam para facilitar a vitória no seguinte. Circunstâncias legislativas permitiram que essas legislações nefandas fossem alhures aprovadas, tudo manipulado pelos globalistas. É precisamente o contrário: vergonha é o fato de aqueles países terem aprovado a matança de fetos antes do nascedouro. De fato, aqueles governos, imitados pelo afã cabralino, gostam menos da vida, sim, sobretudo da vida dos pobres e das populações não brancas. Devemos nos regozijar de, em nosso país, termos resistido a esse crime hediondo que é o aborto institucionalmente patrocinado.

Cabral, um sujeito que faz campanha aberta pelo aborto, teve o desplante de afirmar: "Ninguém é a favor do aborto, mas uma coisa é uma mulher, por alguma necessidade, física ou psicológica, psiquiátrica ou orgânica, desejar interromper uma gravidez". A mulher não tem necessidade de abortar, ela tem necessidade de procriar. O aborto é uma aberração, uma chaga moral que provoca seqüelas físicas e psíquicas. Veja-se que a argumentação cabralina é pura tergiversação e mentira para suportar sua monstruosidade moral. O fato é que aborto é uma abominação e o Estado não pode ser posto a seu serviço.

LIGEIRO, LEVIANO, IRRESPONSÁVEL, DESEDUCADO, DESEDUCADOR E, ACIMA DE TUDO, MACHISTA!

Ligeiro, leviano, irresponsável, deseducado, deseducador e, acima de tudo, machista!
Por Reinaldo Azevedo no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo
“Quem é que aqui não teve uma namoradinha que teve que abortar?”

A frase, como sabem, é do governador do Rio, Sérgio Cabral, e foi dita durante um seminário da revista “Exame”, em que se discutiam oportunidades de negócios no estado por conta da Copa de 2015 e da Olimpíada de 2016. Não sei se Cabral se referia ao assassinato dos fetos no capítulo das oportunidades de negócios ou se fazia apenas uma digressão descompromissada sobre seu horizonte utópico.

Os leitores deste blog — os que amam, os mornos e os que odeiam — sabem o que penso a respeito. Muitos discordam; suas opiniões são publicadas desde que não façam parte de correntes organizadas e não tentem usar a minha página para espalhar números comprovadamente falsos. Já chego lá. Há pessoas que, depois de pesar prós e contras, e mesmo reconhecendo que o aborto é um trauma terrível, entendem que a legalização é o melhor caminho. Acreditam que, entre os males possíveis, esse é o menor.

Combato, sim, a tese aqui. E procuro fazê-lo fora do âmbito religioso, sempre considerando que essa é uma dimensão absolutamente legítima. Cumpre lembrar que há muitos agnósticos que se opõem à legalização. Há uma ética não-religiosa que pode nos reunir.

A tese de Cabral é, em si, constrangedora, mas o tom meio cafajeste de sua linguagem não choca menos: é ligeiro, leviano, irresponsável, deseducado, deseducador e, acima de tudo, machista, aspecto este que chama particularmente a atenção num momento em que uma mulher chega à Presidência — também ela, é bom notar, favorável à legalização do aborto, embora tenha dito o contrário para os leitores. Cabral, lembre-se, é o patrono do ministro da Dengue, José Gomes Temporão, um fanático da causa. Se este senhor tratasse o mosquito com o mesmo rigor com que gostaria de tratar os fetos, estaríamos livres da doença…

Cabral não é obrigado a pensar como penso. Mas está obrigado, sim, a manter certas regras do decoro. Aborto, no Brasil, é crime, e, se há políticos que acreditam que deva ser descriminado, que levem adiante a sua causa. O mesmo vale, por exemplo, para as drogas — aliás, o governador também é favorável à legalização das “leves”… O que um governante não pode, por descabido, inaceitável e ilegal, é praticar este misto de naturalização com apologia do crime, tendo a ousadia de convidar os homens da platéia a confessar que tiveram “uma namoradinha” que fez aborto.

No dia 3 de dezembro, escrevi aqui que Lula e Sérgio Cabral “exibem características comuns que têm rendido a ambos bons dividendos políticos: falam rigorosamente o que lhes dá na telha sem temer o ridículo; conseguem transformar em sucessos de público mesmo os seus mais clamorosos desastres; se preciso, descem a rampa do populismo; na adversidade, atacam os adversários com impressionante rapidez e, last but not least, são amados por amplos setores da imprensa até mesmo quando se dedicam a evoluções circenses.”

Não será diferente desta vez. Se quase 80% dos brasileiros são contra a legalização do aborto, quase 100% dos jornalistas e da imprensa são favoráveis. Comento trecho a trecho a sua fala.

“O Brasil está dando certo; é aprofundar a democracia, vamos aprofundar a liberdade de imprensa, aprofundar a vida como ela é, discutir os temas que têm que ser discutidos.”

Eu não sei o que quer dizer “aprofundar a liberdade de imprensa” — é o que Franklin Martins e José Dirceu, por exemplo, dizem querer. Para o governador do Rio, os que discordam dele entendem a vida como “ela não é”. Mimetiza o pragmatismo tosco de Lula, para quem a divergência ou nasce da sabotagem ou é frescura de intelectuais — e boa parte dos intelectuais o venera como manifestação, suponho, dessa frescura…

“O aborto, por exemplo, foi muito mal abordado na campanha eleitoral. Será que está correto um milhão de mulheres todo ano fazerem o aborto, talvez mais, em que situação, de que maneira?”

Os números de Cabral são mentirosos. Cada um defenda o que bem entender. Eu pago o preço por pensar o que penso. Que outros façam o mesmo. O sujeito quer defender o direito de matar os fetos? Ok. Mas que tenha a coragem de fazê-lo sem precisar maquiar a sua tese com dados falsos. A fala de Cabral é mentirosa porque INEXISTE NOS SISTEMAS PÚBLICO E PRIVADO DE SAÚDE uma notificação para “aborto provocado”. Qual é a base de dados deste senhor? Nenhuma!

Um milhão de abortos provocados por ano no Brasil? O SUS, e estes são dados oficiais, realizou 3,1 milhões de curetagens entre 1995 e 2007 — 3,1 milhões ao longo de 13 anos! Nascem entre 2,8 milhões e 3 milhões de crianças a cada ano no país. Qualquer especialista sabe que a taxa de aborto espontâneo é da ordem de 25%. Assim, notem bem!, se não houvesse um só aborto provocado, aqueles 3 milhões seriam 75% do total de fetos gerados, que chegariam, então, a 4 milhões. Só os abortos espontâneos somam, portanto, um milhão! Desse total, quantos resultaram em procedimentos no SUS? Façam a média anual!

Não vamos enfrentar? Então está bom! Então o policial na esquina leva a graninha dele, o médico lá topa fazer o aborto, a gente engravida uma moça - eu não porque já fiz vasectomia e sou bem casado - mas engravidou… Quem é que aqui não teve uma namoradinha que teve que abortar?”

Vejam que Cabral acha mais fácil propor o aborto em massa do que controlar policial corrupto, o que diz muito de sua própria experiência como governador, não é mesmo? As lambanças que ele protagoniza na segurança pública do Rio são fruto desse descontrole.

O bufão fatalista está convencido de que todos compartilham de suas fraquezas morais ou éticas: “A gente engravida uma moça…” Esse “a gente”, suponho, apelava aos homens presentes, e as moças devem se contentar com o papel de receptáculos das sementes, as cabritas prenhas dos bodes descontrolados. “Quem é que não teve uma namoradinha que teve de abortar?”, indaga um governador de estado, sugerindo que esse contratempo desapareceria com a legalização do aborto. O fato de que essa gravidez é resultado do sexo inseguro, bem, isso, para este pensador, não faz grande diferença.

Em 2007, Cabral, pai de cinco filhos, já havia concedido uma entrevista ao G1 em defesa do aborto. E expôs os seus motivos: “Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal”. Vocês já sabem que o lulista Cabral é um progressista, e eu, um “reacionário”. Eu, por reacionário, acho que o crime é uma escolha que pode ser feita por pobres e ricos. Ele, por progressista, vê em cada pobre um suspeito. Uma das notáveis contribuições de Cabral ao debate é propor que acabemos com os crimes legalizando-os; a outra, que acabemos com a pobreza acabando com os pobres.

Cabral: sem medo da represália dos fetos!
O Rio não pode continuar como está, sabemos. As Unidades da Polícia Pacificadora do Tráfico já ocupam alguns morros. Mas isso é pouco. Noto que o governador está empenhado em fazer nascer menos pobres. É preciso mais ousadia. Em 2007, já fiz esta proposta ao valente político. Por que não combinar a redução drástica de nascimentos de pobres com a elevação também drástica de nascimento de ricos? Não seria legal? Pensem bem: se, por meio do aborto, conseguíssemos quase zerar os partos da Rocinha e, por meio da Bolsa Gente Que Pode, decuplicar os de Ipanema e Leblon, é claro que o Rio seria uma cidade melhor, certo?

Cabral agrediu o decoro, o bom senso, as mulheres, o sexo seguro., a vida. Dada a forma como se expressou, fez a apologia de uma prática criminosa. Mas é possível que muitos o elogiem pela coragem com que enfrenta os fetos de peito aberto, sem temer represálias. Anotem: Sérgio Cabral é candidato a ocupar a vaga aberta por Lula no besteirol nosso de cada dia. Esse rapaz tem grandes ambições!

Por Reinaldo Azevedo
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